Bem vistas as coisas, poderíamos até arranjar um novo tipo de classificação para cinema: o filme hollywodeano passaria a classificar-se como infantil ou adolescente (dependendo da sofisticação dos sonhos ou desejos explorados), e o cinema independente passaria a classificar-se como cinema adulto. Admitiríamos assim que pagávamos bilhete para sonhar um bocadinho e não para nos entretermos simplesmente; e tal como o cinema infantil não substitui o cinema adulto (este cinema adulto), uma infância também não substitui a outra.
Para concluir: sabem porque é que gostei do filme Amelie, do Jounet? Nada mais simples: apenas porque me apaixonei pela personagem.
Lidos por um ocidental, os relatos de Reinaldo Arenas na sua autobiografia são inquietantes; funcionam como um exercício iconoclasta, desmistificando a imagem deificada que ainda muito se tem de Fidel Castro, fundamentada principalmente no facto de tanto chatear os americanos, e de lograr, contra tudo e todos, subsistir na cadeira do poder, mesmo apesar do embargo económico de que é alvo.
O embargo, verdade seja dita, já não é tão asfixiante como há umas décadas atrás; há inúmeros os hotéis portugueses, espanhóis e italianos que se instalaram em Varadero; porém, o poderia entender-se, ou corresponder, como alguma abertura do regime, é afinal um falhanço redondo. Os hotéis são para turistas, a medicina avançada é para turistas, e o povinho apenas se aplica a lei de nivelar por baixo − a acreditar em Reinaldo Arenas e em oposição à versão oficial.
Há bem pouco tempo, o nosso prémio Nobel, um comunista inveterado, voltou as costas a cuba, depois de lhe ter entregue o montante que lhe coubera em Estocolmo. Porquê? Foram condenados à morte cinco intelectuais, aparentemente por serem contra-revolucionários; mas tenho a impressão, mesmo assim, que a visão ocidental é indulgente para com estes comportamentos de Fidel Castro. Acho que nós não temos bem a noção...
A biografia de Arenas, “Antes que Anoiteça”, é crua; e ao longo do texto, tive a noção de que não conseguia realmente conceber as provações de todos aqueles que teimam pelo direito à individualidade, ao livre pensamento, à livre expressão, ou da livre assunção sexual. Aqui, caro Arenas, a gente queixa-se porque Cavaco ganhou as eleições (dizemos que vem aí o fascismo), ou então porque o Sócrates boicotou as declarações do Manuel Alegre (censura). Tu, porém, olhando para o regime político em que eu vivo, não conseguirás entender ao que nos estamos a referir quando dizemos revanchismo, fascismo, golpe de estado ou outras expressões quejandas. São apenas politiquices de gente crescida com falta de brinquedos.
Qual é a ideia que Fidel tenta impor aos cubanos? Como é que um país governado por um regime tão asfixiante, por um tirano opressor, se clama tão desassombradamente livre? Não é fácil de entender; trata-se de uma visão filosófica e teórica, mas deturpada e levada demasiado à letra.
Poderíamos enunciar a perseguição da liberdade da seguinte maneira:
1.o homem sozinho não consegue ser livre; o homem sozinho está condenado à sua solidão, à sua redoma, à sua incapacidade de comunicar; o homem sozinho é imperfeito;
2.a liberdade de um homem implica duas coisas: um conhecimento de si muito grande, e ao mesmo tempo a aceitação profunda desse conhecimento;
3.cumpridas estas duas condições, o homem transcende de si mesmo e encontra o próximo; consegue depurar as suas vias de comunicação, aperfeiçoá-las até à pureza, e só assim consegue entregar-se ao outro.
4.quando o homem se transcende, podem acontecer muitas coisas: segundos os católicos, pode encontrar-se com Deus (daí os católicos dizerem que o homem é livre se amar Deus), ou podem encontrar o outro (daí que uma das máximas do comunismo seja a união faz a força)
5.a força comunista é, aliás, o equivalente mortal à glória de Deus de um católico que se submete às praxes do catequismo; e tanto atingindo a força como atingindo a glória divina, o homem atingirá, teoricamente, um objectivo superior a si mesmo. Com o comunismo, o homem conseguirá chegar e unir-se ao seu semelhante, e dois são mais fortes do que um; já no catolicismo, o homem consegue amar Deus e assim é livre, libertando-se de si mesmo; mas tanto um como o outro são a aniquilação do indivíduo.
Os conceitos parecem ideais; e muito do que acima escrevi são em larga medida os meus próprios conceitos de liberdade, ou de libertação; só que o homem nasce antes de mais nada indivíduo, e portanto, ser-lhe-á sempre difícil transcender sem se aniquilar. Não sei responder se um indivíduo pode transcender - ser livre - sozinho, nem comparar as duas liberdades; tudo me diz que o ser humano é mais livre na solidão. A teoria, no entanto, diz uma coisa diferente...
De qualquer das formas, caberá ao homem e não a um regime decidir se persegue ou não esta liberdade. Por outro lado, como disse umas linhas atrás, ele nunca conseguirá ser tão livre na companhia de outra pessoa como quando está sozinho (excepto no amor). A solidão a muitos títulos é uma fuga. Não é fácil, com toda a dispersão e todas as variáveis da intimidade do homem, que ele se conheça e se aceite de uma forma tão perfeita.
Adão trincou a maçã do conhecimento e isso fez com que tivesse consciência de si mesmo, uma consciência que o deixou perplexo - porque a ignorância torna-nos livres -; e quanto mais Adão se descobria a si mesmo, mais se implantavam a dúvida e as incertezas. Em relação a si mesmo, em relação a deus e em relação a eva; e consequentemente, descobriu que tinha vergonha. Desde então, Adão pretende regressar a Deus e à sua liberdade; mas não funcionaram as diversas torres de babel, tentando unificar a linguagem que permitiria, lá está, que o homem chegasse ao seu seguinte; que transcendesse - a propósito disto, paul auster tem dois ou três capítulos deliciosos no livro Trilogia de Nova Iorque; e wittgenstein tinha toda a razão: é preciso ensinar a mosca a sair da redoma.
Como é que o comunismo de Fidel, e todos os outros comunismos, persegue esta libertação e resolve o paradoxo? Pois pela subjugação, fazendo um bypass, àquela treta do auto-conhecimento e da aceitação, indo directamente ao que interessa. O regime não providencia nem mecanismos nem o tempo para que o homem se conheça a si mesmo; o regime conhece o homem melhor do que ele mesmo e sabe de antemão aquilo que lhe convém: atingir a força e aniquilar a individualidade (se o fim da liberdade é a aniquilação, porque não saltar por cima do conhecimento e da aceitação para ganhar tempo?).
A liberdade em Cuba, em suma, é garatujada em cima do joelho. O regime impõe ao homem a sua cartilha (daí as escolas de reeducação revolucionária, uma das coisas mais violentas do regime), impõe-lhe que renuncie a tudo o que entenda contra-revolucionário (individualismo, comércio livre, etc.), e castiga com prisão e tortura os transviados (leia-se por exemplo homossexuais e escritores). E como torturas não é preciso pensar-se apenas nas máquinas medievais das prisões, há ainda coisas tão mesquinhamente violentas como vizinhos incorporados na polícia secreta para denunciar vizinhos; há tias a denunciar sobrinhos; há amigos a trair amigos. E tudo isto para obrigarem o cubano a ser libre; mas pode alguém obrigar-me a ser livre? É um contra-senso. E será que existe apenas uma única liberdade?
Os meus pais estiveram em cuba de férias, há dois anos atrás, creio, e aconteceram dois episódios curiosos. Num deles, a minha mãe torceu um pé e foi ao hospital do hotel; ela é daquelas pessoas que leva uma farmácia atrás. Acontece que quando o médico lhe viu uma bolsa cheia de carteirinhas de aspegic 1000mg, no meio de toda uma parafernália de outros anti-piréticos, anti-histamínicos, anti tudo e mais alguma coisa, ficou emocionado. Pediu-lhas com timidez, e explicou que uma carteira daquelas, uma singular carteirinha de aspegic 1000mg, dava para curar enxaquecas durante semanas (nós, na nossa "alarvidade" ocidental, tomamos uma carteira inteira se nos dói a cabeça; um cubano contenta-se com uns pozinhos). Noutro episódio, um dos amigos que viajou com eles percebeu que estava a ser seguido por um rapagão em tronco nu; imediatamente passaram-lhe um sem-fim de hipóteses pela cabeça: o rapaz queria assaltá-lo, queria "engatá-lo", queria sabe-se lá o quê. Sentou-se num banco, de onde conseguir avistar um polícia na marginal, e ao mesmo tempo pôs ao colo a máquina fotográfica. O rapaz, porém, mesmo apercebendo-se dos seus receios, sentou-se ao lado dele. Imaginam para quê? Para falar. Para poder falar sem ser controlado, para poder dizer o que lhe apetecesse da vida, do fidel, dos amigos, e de tudo o que lhe viesse à cabeça.
Voltando a Reinaldo Arenas, ele consegue ao fim de quase vinte anos de perseguição sair de Cuba, e foi-se degradado devido a SIDA, contaminado já na vivência ocidental. Acabou depois por suicidar-se num quarto de hotel quando as mãos já não conseguiam escavar a terra (suicidar-se fora aliás um acto sempre falhado em Cuba; tentou-o por diversas vezes enquanto perseguido, mas acontece que um escritor com obra publicada no estrangeiro ocidental não se pode suicidar: o ocidente culparia Fidel de uma morte tão hedionda e isso o regime não permite; prefere que o escritor se retrate publicamente, que renuncie a tudo quanto é, que se humilhe perante uma audiência de sabujos revolucionários, que denuncie todos aqueles com quem falou de literatura e todos aqueles que foram seus amantes homossexuais, e que garanta ter aderido à lindeza da revolução em curso, dispondo-se a escrever longas glorificações). Por diversas vezes no seu livro, Arenas clama que a morte é a derradeira liberdade. Deliciosa ironia te tropeçou o destino, caro Arenas: saiste para o estados unidos para morreres sidoso.
[reinaldo arenas, 1943-1990]
Nota ainda: em Cuba o povo passa fome e vendem-se laranjas no mercado negro a preços exorbitantes; ao mesmo tempo, Fidel organiza desfiles de carnaval que esgotam os cofres do estado, já de si muito depauperado. Com relação a isto, Arenas narra um episódio muito curioso que tem lugar já no exílio: durante um jantar, Arenas é confrontado por um comunista alemão que lhe diz mesmo assim preferir o regime de Fidel à democracia norte-americana. Ouvindo isto, Arenas levanta-se para ele, pega no prato de comida que tem na frente e arroja-o contra a parede; e diz-lhe: agora sim podes ser um castrista. A estes comunistas, Arenas chama de comunistas de luxo.

[a persistência da memória - salvador dali]
Enquanto passeava pelo jardim, reconheci à distância um homem que estava sentado num banco à sombra; não me recordei de como se chamava, e ainda agora não recordo, mas foi em tempos zelador de uma agremiação que eu em miúdo frequentei muito com o meu avô, e onde passava tardes inteiras a brincar com outros miúdos da minha idade.
Lembro-me dele como um homem rezingão nessa altura, e severo, mesmo até quando sorria. E não disfarçava o facto de não gostar de crianças; por isso andava sempre atrás de nós, vociferando para que não fizéssemos barulho e não corrêssemos pelos corredores, tudo numa constância inquebrantável e por entre ameaças de chamar os nossos pais ou mesmo a polícia. E nós incomodávamos toda a gente, é óbvio que sim, quando nos escondíamos debaixo das mesas no meio da gritaria. Mas acabámos por ter certo medo deste homem.
Porém, quando hoje me cruzei com ele, não me reconheceu, embora tenha gritado comigo milhentas vezes. Olhou para mim com um olhar vazio, talvez curioso pela minha aparência algo excêntrica, suponho, mas nem sequer me acenou com a cabeça - voltou a depor o olhar no chão, eu também passei e deixei de olhar-me com ele.
Estava realmente velho, o homem; estava gasto. No princípio, pensei que ainda fosse possível reviver aquele temor respeitoso que dantes sentia por ele; mas eu hoje já não me ponho debaixo das mesas nem incomodo tanto as pessoas, e apenas senti uma vergonhosa lástima por ele, juntamente com alguma inquietação. A sua velhice era frouxa e sobrava muito pouco da severidade firme de outros dias; estava tal e qual os outros velhos que passam os dias num banco qualquer da cidade; alguns ainda jogam às cartas; outros têm amigos, mas muitos foram ficando para trás e apenas esperam ir também.
Pensei: é apenas isto a passagem do tempo; pouco a pouco ficarmos mais parados, cada vez mais indiferentes a quem passa, até nos tornarmos uma memória dentro de um saco de carne gasta. Eu já não incomodo tanto as pessoas; dantes incomodava. É um facto.